O Café Passagem Capítulo 2: Reconhecimentos

O Café Passagem

Capítulo 2: Reconhecimentos

O segundo café chegou acompanhado de um silêncio diferente. Não mais carregado de tensão ou surpresa, mas de uma expectativa quase palpável. Luísa mexia o açúcar em movimentos circulares, hipnóticos, enquanto Daniel observava suas mãos com a mesma atenção que dedicava às páginas de seu caderno.

— Posso fazer uma pergunta? — ela disse, finalmente erguendo os olhos.

— Todas as que quiser.

— No caderno… você escreveu sobre uma filha chamada Clara. Ela é…?

— Nossa — Daniel respondeu sem hesitação, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

A palavra ficou suspensa no ar entre eles. Nossa. Como se já fossem um casal, como se já tivessem construído uma vida juntos, como se o futuro fosse apenas uma extensão inevitável do presente.

— Isso é loucura — Luísa murmurou, mas sua voz não carregava convicção.

— É — Daniel concordou. — Mas você ainda está aqui.

Ela não conseguia negar. Havia algo naquele homem, naquele momento, que desafiava toda lógica. Era como se uma parte dela, uma parte que nem sabia que existia, reconhecesse Daniel como alguém que sempre estivera destinado a encontrar.

— Me conte sobre Lisboa — pediu ela.

Daniel fechou os olhos por um momento, como se acessasse uma memória que ainda não havia acontecido.

— Você usa um vestido azul-marinho. Estamos na Rua Augusta, e você para diante de uma livraria antiga. Compra um livro de Fernando Pessoa que já tem em casa, mas diz que é diferente comprá-lo em Lisboa. Eu fotografo você segurando o livro, sorrindo, com o sol da tarde iluminando seu rosto.

Luísa sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Pessoa era seu poeta favorito, algo que jamais mencionara a ninguém naquele café.

— E Clara?

— Ela tem seus olhos, mas meu jeito teimoso de franzir a testa quando está concentrada. Aos cinco anos, decide que quer ser “escritora de futuros”, como o papai. Você ri e diz que ela pode ser o que quiser, mas que talvez seja melhor começar escrevendo o presente.

As lágrimas vieram sem aviso. Luísa não sabia por que chorava, se era pela beleza daquelas imagens impossíveis ou pelo medo de que pudessem ser reais.

— Hey — Daniel estendeu a mão sobre a mesa, tocando levemente seus dedos. — Não precisa acreditar em nada disso.

— Mas eu acredito — ela sussurrou. — E isso me apavora.

— Por quê?

— Porque… e se você estiver errado? E se nada disso acontecer?

Daniel sorriu com uma ternura que parecia vir de anos de convivência.

— Então teremos vivido um domingo extraordinário. E às vezes, Luísa, um domingo extraordinário vale uma vida inteira de segundas-feiras comuns.

Ela enxugou os olhos com o guardanapo de papel.

— Você sempre fala assim? Como se fosse um personagem de romance?

— Só quando estou nervoso.

— Você está nervoso?

— Apavorado — ele admitiu. — E se você estiver certa? E se eu for apenas um homem comum que desenvolveu uma obsessão estranha por uma desconhecida bonita que frequenta cafés aos domingos?

Luísa riu pela primeira vez desde que se sentara à mesa.

— Então seríamos dois loucos tomando café.

— Há destinos piores.

O relógio na parede marcava meio-dia. O ritual de Daniel deveria ter terminado há muito tempo, mas o caderno permanecia fechado sobre a mesa.

— Posso te fazer um pedido? — Luísa perguntou.

— Claro.

— Escreva sobre hoje. Sobre este momento. Quero saber se o que você vê do futuro inclui… isto.

Daniel abriu o caderno em uma página em branco. Pegou a caneta e começou a escrever, sem tirar os olhos de Luísa. Ela observou suas mãos se moverem com fluidez, como se as palavras já estivessem prontas, esperando apenas para serem libertadas.

Quando terminou, virou o caderno para ela.

“Luísa descobrirá que alguns encontros não são coincidências, mas reconhecimentos. Hoje, ela escolherá acreditar no impossível. E o impossível, grato por sua fé, se tornará inevitável.”

— E agora? — ela perguntou, ecoando sua própria pergunta de minutos atrás.

— Agora — Daniel fechou o caderno e se levantou — você me deixa acompanhá-la até em casa. E no próximo domingo, se quiser, voltamos aqui. Mas desta vez, você traz um livro para ler para mim.

— Que livro?

— Qualquer um. Só quero ouvir sua voz contando uma história que não seja a nossa.

Luísa pegou a bolsa e se levantou também. Quando passaram pela porta do café, ela se virou para olhar a mesa que deixavam para trás.

— Daniel?

— Sim?

— Você realmente acredita que pode ver o futuro?

Ele parou na calçada e a encarou com aqueles olhos castanhos que pareciam guardar segredos do tempo.

— Não sei se vejo o futuro, Luísa. Mas sei que, desde que comecei a escrever sobre você, meu presente ficou muito mais interessante.

E pela primeira vez em anos, Luísa sentiu que o futuro, qualquer que fosse, valia a pena ser vivido.