Como a Coreia do Sul estrategicamente transformou sua literatura em fenômeno global através da Hallyu
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- Autora: Mariana Seminati Pacheco
O Nobel de Literatura 2024 para Han Kang não foi acaso, mas resultado de uma estratégia cultural milimetricamente planejada. Descubra como o K-Lit se tornou o mais novo produto da Hallyu, conquistando leitores ocidentais através de soft power, tecnologia e uma indústria cultural ambiciosa que está redefinindo a literatura mundial.
Em 10 de outubro de 2024, a Coreia do Sul comemorava a vitória da autora Han Kang do Prêmio Nobel de Literatura – a primeira sul-coreana, aliás, a receber este prêmio, se tornando um marco para seu país (G1, 2024). Porém, não podemos negar que alcançar o Nobel se deve a um processo de divulgação da literatura sul-coreana, em que cada título escalou a visibilidade entre os leitores e críticos.

A Estratégia por Trás da Hallyu
O sucesso do movimento cultural da Onda Pop Coreana – também conhecida como Hallyu – não é um mero acaso, mas resultado de conexão entre tecnologia e estratégias comunicacionais, onde o soft power circula as redes sociais, conquistando fãs para a Coreia do Sul através dos produtos midiáticos K-Pop, K-dramas, K-food, K-Beauty, K-fashion.
Além disso, a Hallyu é uma grande marca guarda-chuva, onde um produto se conecta com outro. Você está assistindo a um K-drama e logo fica com vontade de comer o mesmo que seu personagem favorito; ou a busca cada vez maior pelo aprendizado do idioma coreano pelos seguidores dessa onda.
O Nascimento do K-Lit
E um novo produto foi recém-nomeado para esta marca: o K-Lit, que representa as obras literárias atuais em expansão de consumo e tradução. A atenção começa por indicação de idols de K-pop – como foi no caso da obra “Amêndoas”, da autora Sohn Won-Pyung, apresentada aos fãs de BTS pelos membros RM e Suga (Veja, 2023) – e depois atrai para leituras mais profundas, como é o caso das obras de Han Kang, vencedora do Nobel, que aborda críticas sociais e históricas da Coreia do Sul.

A Máquina de Tradução Estratégica
Ainda assim, tanto “A Vegetariana” (Han Kang) quanto “Amêndoas” foram trazidas aos leitores ocidentais graças a um trabalho estratégico da indústria cultural sul-coreana, começando pelo escritório KLWave (adjunto do Literature Translation Institute of Korea), que facilita a tradução, publicação e exportação de obras sul-coreanas interessantes ao mercado internacional, apresentando inclusive aquelas disponíveis para aquisição de direitos de publicação para editores internacionais através do seu portal digital.
Ou seja, há mais uma força pelo Ministério de Cultura, Esporte e Turismo da Coreia do Sul em promover uma onda pop literária – e até o momento, tem sido um plano bem-sucedido, como foi possível ver no stand da editora Rocco na Bienal do Livro de 2024 em São Paulo: a editora, que sempre reforçava sua relação com os títulos de Harry Potter, mudou totalmente para colocar seus compradores na livraria de “Amêndoas”. Uma pequena demonstração de que o mercado editorial também está sentindo esse tsunami, e não pode deixar de surfar nele.
Além do Capital Simbólico
Mas, além do capital simbólico da literatura sul-coreana, que vem querendo se colocar como dominante e competitiva em regiões distantes (Salgado; Doretto, 2022), o K-Lit também tem aberto possibilidades de outros pontos de vista para o público, desde um alívio diário em livros do gênero de Conforto ou Cura, até recontar e visibilizar o passado pelos romances históricos. E, com isso, cada vez mais o público respeita e reconhece a identidade sul-coreana e seu estilo de escrita singular e acessível para o mundo.
E a vitória do Nobel de Literatura foi apenas um exemplo de quão ambiciosa a indústria cultural sul-coreana tem sido em seu investimento na exportação e reconhecimento deste produto K-Lit. É a construção milimetricamente planejada da imagem intelectual do país, influenciando sobre a identidade nacional projetada fora de casa, revisando o passado e conquistando o presente.
Continuemos de olho para ver o que o futuro guarda para a Coreia do Sul – particularmente, creio que apenas começamos a ver o melhor do país asiático e ainda há muito para descobrir e ler.
📌 Principais Pontos do Artigo:
- Nobel de Han Kang resultado de estratégia cultural planejada, não acaso isolado • Hallyu funciona como marca guarda-chuva conectando K-Pop, K-dramas e agora K-Lit
• Idols do BTS (RM e Suga) impulsionaram sucesso de “Amêndoas” no Ocidente • KLWave e Ministério da Cultura sul-coreano facilitam tradução e exportação estratégica • Mercado editorial brasileiro já sente impacto, como demonstrado na Bienal 2024
❓ Perguntas Frequentes (FAQ)
- O que é K-Lit e como se relaciona com a Hallyu? K-Lit representa as obras literárias sul-coreanas em expansão global, sendo o mais novo produto da Hallyu (Onda Pop Coreana). Funciona como marca guarda-chuva conectada ao K-Pop, K-dramas e outros produtos culturais coreanos.
- Como os idols do K-Pop influenciam o sucesso literário? Idols como RM e Suga do BTS recomendam livros aos fãs, criando interesse inicial. O caso de “Amêndoas” exemplifica como essa indicação gera curiosidade que depois se expande para leituras mais profundas.
- Qual o papel do governo sul-coreano na promoção do K-Lit? O Ministério de Cultura, Esporte e Turismo, através do KLWave (Literature Translation Institute of Korea), facilita tradução, publicação e exportação estratégica de obras para mercados internacionais.
- Como o mercado editorial brasileiro tem reagido ao K-Lit? A Bienal do Livro 2024 mostrou editoras como a Rocco mudando estratégias, priorizando títulos coreanos como “Amêndoas” em vez de focar apenas em sucessos tradicionais como Harry Potter.
- Que tipos de literatura o K-Lit oferece além dos sucessos conhecidos? O K-Lit abrange desde livros de “Conforto ou Cura” para alívio diário até romances históricos que recontam e visibilizam o passado sul-coreano, oferecendo perspectivas diversificadas.
🔗 Fontes e Referências:
- G1 (2024) – Cobertura do Nobel de Literatura para Han Kang
- Revista Veja (2023) – Matéria sobre influência do BTS na literatura
- Salgado; Doretto (2022) – Estudos sobre capital simbólico da literatura sul-coreana
- KLWave – Literature Translation Institute of Korea

