Herdeiras do Mar – Mary Lynn Bracht

Quando a literatura dá voz às feridas silenciadas da história

As bombas de Hiroshima e Nagasaki foram noticiadas avidamente em 1945, mas ainda hoje as feridas causadas pelo imperialismo japonês na Ásia como um todo são faladas em tom baixo, sem tanta visibilidade ou importância. Porém, a Coreia do Sul luta para trazer à lembrança mundial seu passado, especialmente um assunto delicado: as chamadas mulheres de conforto – que, na verdade, poderiam ser meninas de conforto.

O caso das mulheres de conforto só foi exposto ao mundo quando uma ocidental contou que havia sido uma das vítimas, em 1992: Jan Ruff O’Herne, de origem holandesa, vivia na Indonésia quando a região foi ocupada, e ela foi capturada para ser uma das tantas mulheres violentadas pelo exército japonês em prostíbulos de guerra. Antes disto, aquelas mulheres coreanas e asiáticas estupradas foram silenciadas – em 1991, a coreana Kim Hak-Sun já havia dado seu depoimento sombrio, mas foi taxada como oportunista.

De fato, as mulheres de conforto são uma ferida nunca cicatrizada para a Coreia, sendo repetidamente cutucada para não ser esquecida, e um espinho na carne para o Japão, que prefere abafar ao máximo esta discussão. E a literatura é um dos espaços que permite não apenas abordar tal temática com a sensibilidade necessária para o mundo. Prova disso é a obra “Herdeiras do Mar”, da autora de diáspora Mary Lynn Bracht, sendo ela norte-americana, mas descendente de coreanos.

A obra recebe este nome por contar a história de uma haenyo (해녀), nome dado para as mergulhadoras da ilha de Jeju, na Coreia, que, em suas técnicas tradicionais de mergulho para suportar águas frias para pescar moluscos, são símbolos de independência, força e determinação. Porém, nem isso as poupou de serem também vítimas dos homens japoneses no período da 2ª Guerra Mundial. E isso é demonstrado por Hanna, a filha mais velha de uma família de pescadores de Jeju, que, para salvar sua irmã mais nova, é capturada pelos soldados do Japão e levada para ser escrava sexual aos dezesseis anos.

Porém, ao mesmo tempo que a história percorre o passado pelo que Hanna passa enquanto mulher de conforto, também traz o presente daqueles que viveram com um buraco em sua família – já que muitas mulheres de conforto, após o fim da guerra, foram simplesmente abandonadas, sem ter para onde voltar, já que foram desonradas através do estupro, ou mortas no processo de violência sexual e guerra –, através da narrativa da irmã Emi, a mais nova, que escapa, e continua a procurar o paradeiro de Hanna após tantos anos.

Desta forma, temos contato tanto com o que aconteceu com essas meninas abusadas e feridas fisicamente, mentalmente, moralmente e socialmente, quanto com as consequências deixadas para trás quando o Japão foi derrotado e nunca assumiu seus atos durante a invasão à Coreia, como as famílias que nunca souberam o que houve com suas filhas. E o peso da leitura é equivalente ao da história, somado à sensibilidade das personagens Hanna e Emi, onde uma se sacrificou para poupar a outra, e a sobrevivente nunca pôde agradecer sua irmã.

É uma leitura emocionante e extremamente forte, que mexe com os leitores e nos faz pensar sobre o quanto sabemos e realmente nos importamos com os crimes de guerra nunca julgados corretamente. As vítimas que continuam vivas ainda esperam o reconhecimento do que viveram e um perdão oficial que possam aceitar. E no rosto das senhoras, agora enrugados, as meninas de conforto lutam para não serem novamente abandonadas, pois “não se pode mudar o passado. O presente é tudo o que lhe resta”. E a voz que a literatura entrega, sempre.

Por MARIANA PACHECO