Quando pensar se torna um ato de resistência em tempos de automatismo
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Em um mundo onde a alma se desliga junto com as notificações, vozes femininas sussurram com firmeza sobre a urgência de repensar nossa existência. Entre Catherine Malabou, Judith Butler e Suely Rolnik, descobrimos que ser humano é suportar a própria reconstrução.
Por Jeane Tertuliano
A cada manhã, quando a gente desperta e já tem uma notificação pedindo atenção, um e-mail que exige resposta, uma cobrança que parece mais urgente que a própria fome, algo em nós também vai se desligando. Não é o celular. É a alma. A alma daquilo que chamávamos de humano.

Pensar a existência, hoje, não é mais um luxo filosófico. É uma necessidade íntima, quase desesperada. E é nesse cenário de urgência que vozes femininas, muitas vezes caladas ou classificadas como “demais”, se levantam com a coragem de quem já sangrou pelas perguntas.
A Plasticidade do Ser
A identidade já não é mais um espelho fixo. É fragmento, é moldura móvel. Catherine Malabou nos lembra que somos sujeitos plásticos, não no sentido de maleáveis ao gosto dos outros, mas como quem resiste e se refaz, mesmo depois de se partir em mil. Ser humano é, também, suportar a própria reconstrução.
E reconstruir-se exige coragem. Judith Butler nos ensinou que identidade não se herda, se constrói e, às vezes, com cacos. A noção de performatividade, tão mal interpretada, é na verdade um grito de liberdade: posso me refazer todos os dias, porque não sou rascunho de ninguém. Minha existência é minha autoria.
O Corpo como Território de Resistência
No meio disso tudo, o corpo. Esse corpo cansado de render, de fingir, de obedecer a métricas e metas. A filósofa brasileira Suely Rolnik, ao falar da colonização do desejo, nos alerta que muitos dos nossos sofrimentos não são individuais. São sintomas do que nos impuseram como normal. E é aí que mora o perigo. E também a chance de ruptura.

O tempo em que vivemos é esse: entre o colapso e a possibilidade. Entre o esgotamento e a reinvenção. Pensar, nesse contexto, é um gesto de insubordinação suave. É dizer: existo, mesmo quando o mundo me quer produtiva em vez de viva.
Vozes que Sussurram com Firmeza
Talvez seja por isso que as vozes que mais escuto não gritam. Sussurram com firmeza. Dizem com palavras inteiras aquilo que eu mesma só sentia entrelinhado. E me reconheço. Porque não estou só.
Repensar a existência humana, hoje, é dizer não ao automatismo. É ter a ousadia de sentir. De viver com presença. De fazer da própria consciência um território fértil, mesmo em tempos de concreto. É escrever, falar, ensinar, amar — tudo com mais densidade. Porque ainda vale a pena habitar-se.
E enquanto houver mulher pensando com o corpo inteiro, com o coração inquieto e as perguntas abertas, haverá resistência. Haverá futuro. E haverá poesia.

📌 Principais Pontos do Artigo:
- Pensar a existência tornou-se uma necessidade urgente em tempos de automatismo • Catherine Malabou: somos sujeitos plásticos capazes de resistir e nos refazer
• Judith Butler: identidade é performatividade, construção diária de nossa autoria existencial • Suely Rolnik: muitos sofrimentos são sintomas de imposições sociais, não questões individuais • Vozes femininas oferecem resistência poética ao esgotamento contemporâneo
❓ Perguntas Frequentes (FAQ)
- O que significa ser um “sujeito plástico” segundo Catherine Malabou? Para Malabou, ser plástico não significa ser maleável aos outros, mas ter a capacidade de resistir e se refazer mesmo após experiências traumáticas ou transformadoras. É a habilidade de suportar a própria reconstrução mantendo a essência.
- Como Judith Butler define performatividade de gênero? Butler propõe que identidade não é algo herdado, mas construído diariamente através de atos performativos. A performatividade é um “grito de liberdade” – a possibilidade de nos refazermos constantemente, sendo autores de nossa própria existência.
- O que Suely Rolnik quer dizer com “colonização do desejo”? Rolnik argumenta que muitos de nossos sofrimentos não são questões individuais, mas sintomas de imposições sociais sobre o que consideramos “normal”. Nossos desejos são colonizados por estruturas de poder que definem como devemos ser e sentir.
- Por que pensar se tornou um “ato de insubordinação”? Em um mundo que nos quer produtivos em vez de vivos, parar para pensar, sentir e questionar torna-se um ato de resistência ao automatismo. É recusar ser apenas funcional e reivindicar o direito de existir com densidade.
- Qual o papel das vozes femininas no pensamento contemporâneo? As vozes femininas, historicamente silenciadas, trazem perspectivas essenciais sobre corpo, identidade e resistência. Elas “sussurram com firmeza”, oferecendo alternativas poéticas e profundas ao esgotamento contemporâneo.
🔗 Fontes e Referências:
- Catherine Malabou – Teoria da plasticidade cerebral e subjetiva
- Judith Butler – Teoria da performatividade de gênero
- Suely Rolnik – Estudos sobre colonização do desejo e micropolítica

